Quando se fala do mercado editorial moçambicano, a conversa costuma centrar-se nos escritores, nas editoras e nos leitores. Raramente começa pelo designer. No entanto, entre o manuscrito e o livro que chega às mãos do leitor existe um território onde o design editorial desempenha um papel fundamental.
Design editorial não é simplesmente “arrumar um texto”, escolher uma fonte
ou criar uma capa. É organizar visualmente o conteúdo e construir uma
experiência de leitura através da tipografia, da paginação, das imagens, das
margens, da hierarquia, do formato e da própria materialidade do livro.
Jan Tschichold, uma das grandes referências do design editorial, demonstrou a importância da tipografia, das proporções e das grelhas na construção de livros. Ellen Lupton, por sua vez, tornou acessíveis conceitos fundamentais como hierarquia, contraste, ritmo e escala. Em ambos os casos, encontramos uma ideia essencial: o design deve servir a leitura.
Um mercado pequeno, mas em construção
O mercado editorial moçambicano enfrenta dificuldades: custos de produção,
distribuição limitada, poder de compra reduzido e fragilidade das estruturas
editoriais. Uma reportagem do Jornal Notícias chegou a descrevê-lo como
um mercado “quase inexistente” e ainda em construção.
Marcello G. P. Stella, no estudo Independent Publishing in Angola,
Mozambique, Cape Verde, and Guinea-Bissau, mostra como editoras
independentes têm criado estratégias para desenvolver catálogos em contextos
difíceis. Em Moçambique, o autor analisa iniciativas como Ethale Publishing,
Trinta Zero Nove, Fundza, entre outras.
Isso significa que o cenário editorial moçambicano não é um vazio. É um ecossistema que ainda está a desenvolver-se, e onde existem estruturas a desenvolver-se, existem também necessidades profissionais.
Onde estão as oportunidades?
Uma das oportunidades está nos autores independentes. À medida que mais
escritores procuram publicar fora dos circuitos tradicionais, aumenta a procura
por serviços de design de capa, paginação, preparação de ficheiros e produção
gráfica.
Mas o design editorial não deve limitar-se à literatura. Relatórios
institucionais, revistas, catálogos, livros de fotografia, monografias, teses,
publicações académicas, livros infantis, manuais e publicações corporativas
também precisam de soluções editoriais profissionais.
Por isso, o designer que se apresenta apenas como alguém que “faz capas” reduz o próprio campo de actuação. O designer que se posiciona como especialista em comunicação editorial encontra possibilidades muito mais amplas.
Design também é mediação
O problema do mercado editorial não é apenas a falta de livros ou de
leitores. Existem também questões de acesso, distribuição, preço, comunicação e
apresentação.
Um bom livro pode permanecer invisível. Um excelente autor pode ter uma
capa pouco adequada. Uma editora pode publicar bons títulos sem possuir uma
identidade visual consistente. É aqui que o design ultrapassa a estética.
A capa estabelece o primeiro contacto com o leitor. A composição interior determina a experiência de leitura. A identidade visual ajuda a tornar uma editora reconhecível. Por isso, o designer não deve ser visto apenas como alguém que entra no processo no final. Pode ser um participante estratégico na construção do livro e da própria marca editorial.
O desafio da valorização
Existe, contudo, outro problema: a percepção do valor do trabalho criativo.
Num mercado pequeno, a negociação tende a começar pela pergunta: “Quanto
custa?”, mas deveria começar também por outra: “Que valor este trabalho
acrescenta ao livro?”
O design editorial exige conhecimento técnico, tempo e responsabilidade. Um projecto profissional envolve briefing, orçamento, cronograma, preparação de ficheiros, revisões e conhecimento dos processos de impressão e produção. Valorizar o designer significa também contribuir para a profissionalização do mercado editorial.
Uma oportunidade chamada Moçambique
O design editorial moçambicano não precisa de copiar modelos estrangeiros.
Pode aprender com diferentes tradições, mas também construir uma linguagem
própria.
Moçambique possui literatura, arquitectura, fotografia, música, paisagens,
línguas e experiências sociais capazes de alimentar uma identidade visual
contemporânea. Isso não significa recorrer automaticamente a símbolos
considerados “africanos”. Significa permitir que a realidade moçambicana seja
matéria-prima para o pensamento gráfico.
O mercado editorial moçambicano ainda enfrenta dificuldades, mas está em
movimento. Há autores a escrever, editoras a publicar, projectos independentes
a surgir e leitores à procura de livros. E, consequentemente, há livros para serem
desenhados.
Talvez a questão não seja esperar que o mercado esteja pronto para que o
design editorial tenha espaço. Talvez o próprio design possa ajudar a construir
esse mercado.
Imagem concebida por: Aboubakar Bin


1 Comentários
Adorei a matéria
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